Quase um parque de campismo

nas mãos de um poeta

os pinheiros crescem

lenta, mas infinitamente,

até ao azul, observados

do chão pelos olhos,

atentos, das mãos.

 

numa gruta

de lona e ferro,

observa-se

os pardais

lá no topo

enquanto

se ama.

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa

fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”,

algo que já lá não está ou se perdeu

antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

 

Em certas tardes altas, absolutas,

quando o mundo por fim nos recebe

como se também nós fôssemos mundo,

a nossa própria ausência é uma coisa.

 

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos

do tamanho da sua solidão.

Também nós um dia tivemos um nome

mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Praia no inverno

alguma espuma teima

em espraiar-se

apesar de estar já morta

 

a areia dourada

escapa-se das mãos

de um poeta

como o mar

se escapa da pele

 

a ponta acesa

de um cigarro

rola ao vento

como lume

a nascer do chão

 

bela imagem

apesar do frio

 

sinto

que poderia

escrever para sempre, mas

não vou maçar, vou antes dormir

duvido que o Aleixo soubesse

o que é

uma aliteração

tenho areia entre os dentes

e punhais de palavras no peito