GAIMIRA  – grupo de malandros

 

 

uma azeda gaimira

desconhecida até dos dicionários

assaltou a vida

com os dedos em chamas

 

ao pescoço traziam

um colar de pregos

como símbolo

da crueldade dos corpos

 

na voz sobressaía

a imobilidade

e nos olhos

sobressaía a noite

 

sem qualquer piedade

apoderaram-se do som e do mar

como quem se apropria do choro

ou faz seu o sangue dos outros.

LINÁRIA – Linho bravo.

 

na testa do pescador

um bocado de velha linária

separa o suor do sol

e no peito é a flanela que divide

a pele e os pedaços de rio

uma e outra são aos quadrados

mas para assustar a estrela maior

o pano que quase lhe tapa os olhos

é mais claro que a camisa

que lhe cobre as costas

e aquece

as veias e o

sangue.

EXCELER – Distinguir-se pela excelência; ser excelente.

DOXOMANIA – Mania ou obsessão relacionada com o desejo de glória.

ANÁBATA – Cavaleiro que, nos Jogos Olímpicos, disputava o prémio;  Prémio com dois cavalos.

POALHA – Poeira leve na atmosfera.

TEAGEM – Teia.

 

Na sua doxomania

o anábata

levanta  uma teagem

de poalha

tentativa vã de se exceler

todos o conhecem

e sabem o pouco que vale

nas areias secas

da vida

na arena

onde marcha a morte

no salgado anfiteatro

onde caminham as sombras

de antigos e corajosos

guerreiros

fantasmas de homens

um dia vou reter as tuas mãos no corpo de argila dos animais sem sombra. dessa forma lembrar-te será como viajar por cidades azuis e por jardins de espuma. quando a voz da lua desce aos lagos e os feiticeiros sobem as ondas explodem de medo em praias de amor.

um dia li num poema do Al Berto

que ele tinha lido num livro que

«viajar cura a melancolia»

 

por experiência própia

no poema

ele acreditava nisso

eu dependendo do destino

não acredito.

 

é impossível não

ficar melancólico

perante o Coliseu

o Parque Guel

o Arco do Triunfo

ou o Castelo de Praga.

 

a história que vive

nesses sítios

não o permite.

 

sei ou desconfio

que o poeta se referia

a outra melancolia

à que anda pelas esquinas

à que se arrasta pelos prédios

e nos entra pela porta

como polícias raivosos

à procura

da droga escondida

entre as almofadas

do velho sofá.

 

(se não me levantar nunca).

 

a das dunas cura

à outra só o infinito.

sabes

o branco voa por cima da pele

e restos repousam sobre o hidrogénio da morte

como alvos de cimento e chumbo nas paredes

esburacadas de uma velha casa

 

já não sei se os metais pesados e as estátuas de saliva e terra

continuam a correr.

sabes

a alegria que sinto não é por estar contigo

é por não estar sem ti