avc-r

Na manhã seguinte lá estava eu ansioso por repetir tudo. Em especial, ansioso por repetir a ida ao café e com esperança de também a noite se repetir

noite

 

avc do amor – responsabilidade social

“Recebemos um donativo muito significativo do autor do livro «AVC Do Amor», Luís Abreu para apoiar a Associação Salvador!

Luís Abreu é tetraplégico e decidiu oferecer 50% do lucro obtido com a venda do livro. É a prova que todos nós enquanto cidadãos podemos fazer a diferença no apoio às instituições.

Poderá ainda adquirir o livro (11€) apoiando a Associação Salvador.

Poderá encomendar o livro através do mail luisfdsabreu@gmail.com

Obrigado Luís!!!”

 

AQUISIÇÕES (aqui há o ebook a 3€): https://www.chiadoeditora.com/livraria/avc-do-amor

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diário

é nevoeiro o brilho das estrelas

quando da tua boca sai a indizível

teia de amor

 

é silêncio o rumor do mar

no geométrico infinito

do teu rosto

 

só nas nuvens é possível escrever as tuas mãos

e apenas no calor é que elas se movem lentas

inerente ao prazer do toque está a tua respiração

e a energia que ela transmite e revela aos sismos

 

é na furiosa agitação da carne que grito o teu nome

mas nas chamas do teu corpo arde a serenidade

e ignoras as exclamações de amor na minha voz

finges não perceber o sangue nos meus dedos

Nevoeiro

 

avc-r

– Para quê perder tempo? Já o fiz durante anos e perder tempo é a pior das perdas. É pior que perder a vida. Eu já perdi um deles e quase a outra – tenho bastante conhecimento de causa. Uns 85% dele.

tempo

 

deixa errar

as minhas mãos

até onde respiram as fontes

 

que ardam

entre os teus lábios

 

tocar-te como quem sonha

 

tocar agora o fulgor

e errar novamente até à fogueira breve

mergulhar

entrar

 

tocar-te como se respira

 

tocar

 

avc-r

Depois de administrado o fármaco, a Dalila levou-me ao gabinete onde eu tinha conhecido e sido acompanhado pelo Miguel. Outra pessoa o ocupava.

– Olá, Jorge. Este é o Rodrigo.

– Obrigado, Dalila. Olá, Rodrigo. Sou o Jorge, sou fisioterapeuta e vou acompanhá-lo nos próximos dias. Posso?

Agarrou as pegas da cadeira, desviando cordialmente a Dalila e mostrando que queria ser ele a empurrá-la:

– Muito gosto, Jorge.

Os tratamentos do Jorge eram

 

fármaco

 

diário

quando eu morrer não quero ninguém triste. costuma dizer-se que só a morte não tem remédio. não concordo totalmente. para quem fica e ama os que partem, mais que ter remédio, a morte pode, muitas vezes, ser um remédio, mas mais que remediar os que ficam têm obrigação de ser felizes. eu sei que é mais fácil falar que praticar e que a ausência física magoa muito, mas pensem: quem vos ama e parte, onde quer que esteja, quererá ver-vos tristes? duvido.

outro motivo para não querer ninguém triste é porque a minha ausência física não o justifica. sejamos práticos: fisicamente só dou trabalho, emocionalmente estarei aqui.

quando eu morrer não quero ninguém triste.

triste

 

diário

contigo imaginar o teu nome

e a simplicidade com que incendeia

os filamentos do sonho

a inocência

 

e a extrema lucidez do infinito

 

o que sobra depois dele?

um céu sem estrelas?

um poema sem sílabas

um oceano sem ondas

 

dunas de silêncio no corpo

teias de solidão nos olhos

lágrimas que a música liberta

sand-dunes

 

diário

espero o silêncio ardente dos pássaros

para poder nele ver a solidão das estrelas

e a cruel navegação da saudade no corpo

 

a imobilidade do branco e do cimento

faz pesado o infinito e atenua memórias

sem que a eternidade as condense

 

a impaciência desfaz a poesia durante o silêncio

e apaga a perfeição escaldante dos moinhos de fogo

nas avenidas de sangue que os orgasmos desenham

com canetas de carnal desejo

 

anéis de versos e vozes sangrentas estrangulam

o único despertar permitido ao palpável

esfaqueiam a liberdade da criação

e os mapas de amor das letras

silêncio ardente dos pássaros