voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal


Mário Cesariny

fevereiro 2003

1-2

 

Nasce

o tempo

e o rio

na nascente

da vida,

navega

um barco

no rio

e eu rio-me

ao leme

e corre o tempo

e corre a tempo

de lá chegar.

E vai o barco

e vai vida

e volta louca

por lá voltar

mas vem a morte

e vem a tempo

e vem do rio

e vem no barco

e vai a vida

e fica o tempo

e morre o rio.

 

2-2

 

Hoje foi diferente:

ficámos em silêncio

e os nossos corpos

falaram por nós.

Os teus olhos

substituiam a lua

e anunciavam tudo

segundos antes

de tudo acontecer.

Depois da coragem

do primeiro grito

brilhaste

e amanheceu

só para nós.

Depois o silêncio

e a lua novamente,

apagada no céu,

a brilhar

no teu peito.

 

6-2

 

Há momentos assim, momentos de silêncio em que o silêncio

se veste de si e se eleva à condição de mensageiro sagrado

entre dois mundos que se entendem num olhar surdo e mudo,

entre dois mundos que se entendem numa melodia de gestos

há muito oferecidos pelo lado de dentro da sua existência.

 

Nesses calados momentos, a massa densa que habita as almas

dos amantes, envolve-os com um colorido manto de retalhos,

geometricamente costurado com a linha de vida que os une,

e recorda-lhes os momentos de maior som que os permite amar

também na sua ausência. Que os permite amarem-se em silêncio.

6-2

 

Afogo-me de medo em cada lágrima que escondes no mar, imenso rochedo

que te veste nestes dias, imitando a lua em dias de eclipse, escondendo o sol.

Talvez por isso, não navegue em ti neste escuro eclipse como em noites de

amarga e trovejante tempestade. Talvez por isso, prefiras navegar sozinha.

 


10-2

 

 

Na noite, nosso dia, o infinito e o tudo são escassos,

o ódio e a mentira fracassos, os nossos corpos alegria

e a nossa dança poesia

– a vida nos nossos braços.

 

Na noite, nosso jardim, ao sabor da textura do amor,

experimentamos a loucura e pingam estrelas de ternura

com cheiro a alecrim

            – a vida em pedaços de calor.

 


11-2

 

que 

 

borboleta

 

ilumina

 

a

 

cor

 

que

 

trazes

 

nos

 

olhos?

 

que pássaro voa no teu peito?

 

porque

 

te

 

amo sem conhecer

 

o sabor do amor?

 


11-2

 

 

vida toupeira, desperdício genético,

na cegueira colectiva faço apenas o que me obrigam

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

catacumbas espirais, túneis em chamas

que não chegam nem levam a parte alguma do céu

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

estou no lado errado da lua,

numa sala fechada pela orgulhosa ignorância

de um gorila que navega à deriva

protegendo-se das tempestades de merda

que ele próprio inventa

com a máscara do conforto

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

pouco interessa

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

nada que me interesse

 

estou rodeado de orgulhosos poços de saber,

profundos abismos oceânicos povoados de conhecimento,

formas de vida desprovidas de vazio, tudo as preenche

na totalidade e,

imagine-se,

basta-lhes uma moeda

para responderem a todas as necessidades alheias

 

até eu, cápsula de cianeto, posso mergulhar

e afogar-me nesse mar de erudição sem perigar

qualquer outra espécie viva ou já morta

 

mas faço apenas o que me obrigam

no último sopro da toupeira

mascarada pelo conforto

 

que escasso

é o ar que respiro nestes túneis


12-2

 

não há pingo de cera

que caia das velas que acendo

que não me deixe uma marca na pele

 

a altas ou pequenas, finas ou largas,

aromáticas ou simplesmente velas

a mesma entrega (resignação?)

ao ciclo que as comanda

para além da minha vontade

 

a cada uma um fósforo

o fascínio de as ver arder

primeiro paixão fogo dilacerante

depois chamas vestidas de hábito

ardem derretem marcam-me o corpo

 

irreversíveis

consomem-se totalmente

extinguem-se deixando-me apenas

o rasto, pegadas na praia deserta,

marcas de quem por aqui passou

 

por vezes o vento

apaga algumas delas ainda a meio

gasto um ou outro fósforo a mais

e reacendo-as para que se apaguem

mortas com a mesma dignidade

 

continuo no entanto

a iluminar o meu quarto

com a luz serena

de uma vela que arde

para morrer

 

perdi a esperança

de encontrar a vela eterna

e limito-me a consumir uma vela

após outra até que uma delas

se extinga depois de mim.

 

12-2

 

O tempo também pode acabar

 

o tempo mergulhou no mar

depois de uma dose demasiado forte de heroína.

 

desta vez as ondas recusaram ajuda

enrolaram-lhe o corpo, quebraram-lhe os ossos

e arrastaram os segundos, os minutos e as horas

para as profundezas escuras do oceano

 

já não é senão carne apodrecida

a quem nem o mais faminto habitante

da profunda cidade do inferno

ousa tentar digerir. sozinha, a morte salva-o do mar.

 

o tempo acabou

depois de uma dose demasiado forte de heroína.

 

o tempo acabou.

 

off.

 

 

17-2

 

por todo o mundo

existem as praias

e as ondas

que as alimentam,

porque o mar,

outrora mudo,

precisou de inventar

as mais belas metáforas

para dizer que te ama

 

por todo o mundo

existem os poetas

e as palavras

que alimentam,

porque o homem,

outrora mudo,

precisou de inventar

as mais belas metáforas

para dizer que te ama

 

por todo o mundo

existes tu

e os sonhos

que alimentas,

porque deus,

vendo-me mudo,

precisou de inventar

uma forma secreta

de fazer-me sonhar.

 

18-2

 

sempre sonhei

não escrever este poema

 

mas

 

há uma faca e um vaso vazio de mim no lugar que reservava aos livros

 

cansei-me

 

das palavras e

d      os espaços

 

preenchidos

por ti

 

acabaram

os poemas de amor

se os houve

acabaram os poemas

do erotismo

que

 

inventávamos

existir

nos bancos de jardim

 

onde nascemos gravei a nossa morte em letras fundas

e nada mais.


17-2

 

Poema ditado pela Lua

 

durante a noite, a lua estendeu devagar

os braços e abriu a janela do meu quarto

com um sorriso nos dedos de prata fina.

 

deixando lá fora a noite na mais perfeita escuridão,

entrou, afagou o meu cabelo molhado de lágrimas

e deitou-se na minha cama de espinhos de roseira,

 

falou-me com a voz tranquila de luz cor de platina

e cúmplice revelou-me os segredos dos deuses sagrados

que eternos comandam no tempo a vida e a beleza viva

 

Ana, entendo agora porque nasce o dia no teu corpo,

porque não sangram as feridas dos espinhos na cama

e porque se esconde rendido o sol por trás do teu peito

 


19-2

 

um banco de jardim

não é mais que um banco de jardim

 

mas existe a madeira de que é feito

assim como existe a lua, o sol e a Ria de Aveiro

 

o mundo fora da gaveta

onde escondemos as crónicas de sempre

 

 

20-2

 

as ruas, as prostitutas e os reflexos nas poças
de salácia lamacenta permanecem indiferentes
ao nascer por entre as nuvens do lilás difuso
quase de chuva, quase de esperança, quase de janeiro.
às portas de casas, onde a luz não ousa nunca,
trocam-se vidas por dinheiro, vendem-se restos
e aponta-se a dedo o caminho para o lado frio do sol,
como eu, insensíveis à escassez de ar que nos rodeia,
outros teimam também em enterrar os olhos no chão
enegrecido pelo tempo ou pelo sangue cuspido
pelos nossos alvos. nada vemos e nada falamos
e nada fazemos e nada. nada. a dependência da morte
adormece com o corpo moldado às curvas das esquinas
e das escadas que atravessamos mas preferimos saltar
dois degraus ou usar outro quarteirão. nada a fazer.
nada fazer. ser assaltado à mão armada pela vida
e não apresentar queixa ao faroleiro que diariamente
acende e ilumina o rumo que decidimos não escolher.

 

venham, venham. conheçam a Lisboa romântica,
o Tejo inspirador, os recantos dos poetas, os jardins,
as colinas e os miradouros, os restaurantes, os bares
e as casas e palácios de reis e romances eternos.
aproveitem e não se esqueçam de conhecer também a outra,
a que se alimenta do lixo que sobra dos roteiros turísticos,
a que dorme nas arcadas da Almirante Reis, junto a montras
de lojas que na sua maioria, por curiosidade ou ironia,
exibem camas e mesas compostas. coincidência certamente.


28-2

 

Era forte
aquele forte
que elegemos
como morada
e transporte
do amor
que agora
não é
senão nada
Já não
demora
por isso,
o instante
gigante,
o segundo
feito hora,
o diminuto
minuto
vestido
a preceito
que fará
da sorte
de outrora
a morte
de agora.
Vou-me
embora
de ti,
vou nadar
daqui
para fora,
pois já nada
me vale
neste vale
onde outrora
um coração
nadava
hora após hora
na direcção
apontada
pela ponta
afiada
de um beijo
teu
ou de um
desejo
meu.
Sim,
é verdade,
abandono
o barco
assim,
sem mais,
já não tenho sono
nem piedade
de ti
ou de mim.
Cheguei
ao fim
do cabo
das minhas
tormentas,
vou atar-me
com um cabo
de sangue
aqui mesmo,
na encosta
mais íngreme,
vou pendurar-me
de costas
para ti
e morrer-te
a olhar
o mar.
A Deus,
peço
apenas
a força
e a forca
para este Adeus.
Adeus.

 

No Vale
Sem Sorte,
soprou
um vento
de norte,
trouxe
com ele
a morte
até ao cabo
onde pendurado
por um cabo
estava
o forte
e o amor
de outrora
ou o nada
de agora.
Não durou
nem mais
uma hora.

28-2

 

 

lembras-te de prometer espelhar a minha pele todos os dias?

espreita para aqui com as estrelas de ver que tens no coração,

vês este cinzento? é a minha pele enfraquecida pela falta,

já nada reflecte pois não? está então quebrado o acordo.

 

não mais precisas de me espelhar, de te procurares em mim,

 

28-2

 

pouso telemóvel sobre a mesa e as mãos sobre o teclado, espero uma mensagem ou palavras que afastem o medo. acendo mais um cigarro e olho para o monitor, ninguém.

tudo está imóvel à minha volta, os livros fechados na estante, as figuras do século vinte na parede, a fotografia do meu pai,  as folhas com palavras rasuradas por não serem de ninguém. 

a um canto, um cinzeiro meio cheio e um caroço de maça mal acabado lutam entre si, noutro, um espelho partido espalha fios de luz amarela distorcidos pelo fumo vivo do cigarro. olho novamente os contactos do messenger, ninguém. 

LATE NIGHT SECRETS

Li, há uns dias, a alguém que escrevia num comentário de um blog, que Fernando Pessoa está fora de moda.

 

A P O N T A M E N T O
Álvaro de Campos

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um faso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

um banco de jardim

não é mais que um banco de jardim

 

mas existe a madeira de que é feito

assim como existe a lua, o sol e a Ria de Aveiro

 

o mundo fora da gaveta

onde escondemos as crónicas de sempre

desperdício genético

 

vida toupeira, desperdício genético,

na cegueira colectiva faço apenas o que me obrigam

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

catacumbas espirais, túneis em chamas

que não chegam nem levam a parte alguma do céu

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

estou no lado errado da lua,

numa sala fechada pela orgulhosa ignorância

de um gorila que navega à deriva

protegendo-se das tempestades de merda

que ele próprio inventa

com a máscara do conforto

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

pouco
interessa

 

tão pouco é o ar que
respiramos

 

nada que me
interesse

 

estou rodeado de orgulhosos poços de
saber,

profundos abismos oceânicos povoados
de conhecimento,

formas de vida desprovidas de vazio,
tudo as preenche

na totalidade
e,

imagine-se,

basta-lhes uma moeda

para responderem a todas as necessidades alheias

 

até eu, cápsula de cianeto, posso mergulhar

e afogar-me nesse mar de erudição sem perigar

qualquer outra espécie viva ou já
morta

 

mas faço apenas o que me obrigam

no último sopro da toupeira

mascarada pelo conforto

 

que escasso

é o ar que respiro nestes túneis

janeiro 2003

 

 

vida toupeira, desperdício genético,

na cegueira colectiva faço apenas o que me obrigam

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

catacumbas espirais, túneis em chamas

que não chegam nem levam a parte alguma do céu

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

estou no lado errado da lua,

numa sala fechada pela orgulhosa ignorância

de um gorila que navega à deriva

protegendo-se das tempestades de merda

que ele próprio inventa

com a máscara do conforto

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

pouco interessa

 

tão pouco é o ar que respiramos

 

nada que me interesse

 

estou rodeado de orgulhosos poços de saber,

profundos abismos oceânicos povoados de conhecimento,

formas de vida desprovidas de vazio, tudo as preenche

na totalidade e,

imagine-se,

basta-lhes uma moeda

para responderem a todas as necessidades alheias

 

até eu, cápsula de cianeto, posso mergulhar

e afogar-me nesse mar de erudição sem perigar

qualquer outra espécie viva ou já morta

 

mas faço apenas o que me obrigam

no último sopro da toupeira

mascarada pelo conforto

 

que escasso

é o ar que respiro nestes túneis

 

11-1

 

 

um banco de jardim

não é mais que um banco de jardim

 

mas existe a madeira de que é feito

assim como existe a lua, o sol e a Ria de Aveiro

 

o mundo fora da gaveta

onde escondemos as crónicas de sempre

 19-1

 

sempre sonhei

não escrever este poema

 

mas

 

há uma faca e um vaso vazio de mim no lugar que reservava aos livros

 

cansei-me

 

das palavras e

d      os espaços

 

preenchidos

por ti

 

acabaram

os poemas de amor

se os houve

acabaram os poemas

do erotismo

que

 

inventávamos

existir

nos bancos de jardim

 

onde nascemos gravei a nossa morte em letras fundas

e nada mais.

18-1

 

por todo o mundo

existem as praias

e as ondas

que as alimentam,

porque o mar,

outrora mudo,

precisou de inventar

as mais belas metáforas

para dizer que te ama

 

por todo o mundo

existem os poetas

e as palavras

que alimentam,

porque o homem,

outrora mudo,

precisou de inventar

as mais belas metáforas

para dizer que te ama

 

por todo o mundo

existes tu

e os sonhos

que alimentas,

porque deus,

vendo-me mudo,

precisou de inventar

uma forma secreta

de fazer-me sonhar.

 

17-1

 

2002 – parte IV

6.

 

Vou arrancar os sonhos do meu peito,

estilhaçá-los como vidros e deixar de acreditar.

Vou semear um deserto de plantas rarefeito,

afogar-me na maior das dunas e deixar de sonhar.

 

Não se realizou até hoje um só inconsciente querer,

por mim, pelos outros ou por Deus todos fugiram.

Quero agora, mesmo que chorando, adormecer

e desistir dos sonhos que de mim desistiram.

 

Não mais alimentarei paixões de Alma,

que se sobreponha a mente ao coração,

se no Espírito não encontro calma,

também desisto da frágil recordação.

 

Antes a alegre ignorância do tolo e contente

que este sofrimento de quem luta por sonhos.

Antes a paz dos enterrados em terra doente

que esta guerra de sentimentos medonhos.

 

Passo a preferir o projecto ao sonho!

 


7.

 

Fechei os olhos neste preciso momento,

não sou eu que escrevo, mas o meu desejo de te abraçar.

Viajo deste mundo de lágrimas na esperança de alcançar o teu.

Longe ou perto que interessa? Mesmo daqui seguro as tuas lágrimas

com as minhas e guardo-as juntas no mesmo coração,

no coração grande que habita o Todo.

Depois abraço-te num sorriso e segredo às tuas mágoas

que não preciso dos meus braços,

que não preciso das minhas mãos para as estrangular,

preciso apenas de te amar e que com esta forma tão especial

de amor que a ti te destino, também não preciso do teu beijo

para suster o meu pranto, preciso apenas do teu sorriso.

 


8.

 

Estou bem assim,

não preciso de mais nada.

Obrigado, mas não.

Chove sangue no meu quarto

e é quanto me basta.


9.

Almada, 14-11-2002

com a memória e o coração no

dia 12 de novembo de 2002.

 

por vezes um anjo desce dos céus

e rasga a dor do mundo com mãos de ouro

 

(e basta-lhe apenas o amor)

 


10.

 

Ergue-te minha Deusa,

dança acima do solo

ao ritmo deste Allegro e vem,

vem sereia encantada,

eu espero sem sofrer,

mas vem. Vem e alimenta

a minha alma com a sinfonia

de sentidos que habita

o rio de água cristal

que corre em tuas veias.

 

Ergue-te minha Deusa,

ergue-te por entre a orquestra

de prazeres secretos

que respira a tua música,

ao rumor dos tambores

abre serena os braços,

faz da melodia dos violinos

a harmonia dos teus passos

e conduz o teu corpo,

à casa onde habita o sonho.

 

Ergue-te minha Deusa,

não venhas porque te amo,

mas vem se me amares,

pois quero compor contigo

a mais bela de todas as óperas,

a mais intensa das sinfonias,

a mais completa de todas as obras,

a mais perfeita poesia.

Só depois poderei sonhar

o poema que me falta cantar.

 


11.

 

I.

Acordado, sonhei que amava uma Margarida,

que se despia ao sabor de cada momento,

transformando a noite em contentamento

e a distância impossível em voz querida.

 

O seu corpo encerrava os prazeres do mundo

e inventava a sensualidade no espaço mudo,

e onde o silêncio mais que muito era o tudo,

nasceu o que se ouve só no prazer profundo.

 

Sem que pudessem as minhas mãos tocar-lhe,

sem respirar o aroma que adivinho supremo,

sem o sabor do beijo que antevejo divino,

 

mas com o erotismo de um cisne, a enfeitar-lhe

os movimentos, provocou o deleite extremo

e enfeitou a minha noite como hoje a ilumino.

 

II.

 

E a fina branca flor, que sonhei nua e minha,

alimentou-se dos meus olhos em puro desejo

e mostrou-me no nu desfolhado que ainda vejo

as estradas por onde com ela o amor caminha.

 

Protegida pelo calor, dançava o amor sozinha,

despia-se e tornava-me fogo sem um só beijo,

tocava o corpo em flor, em sensual doce festejo,

com toques meigos que da volúpia faziam rainha.

 

Desciam-lhe os dedos do pescoço aos ombros,

caminhavam em prazer entre o ventre e o peito

e com as formas que desenhava no ar sereno,

 

reduziu a minha sólida solidão a escombros,

iluminou a noite com um dia de prazer perfeito

e fez da revoltada tempestade mar ameno.


12.

 

E eis que surge o amargo silêncio nas selvas eléctricas,

onde palavras escritas substituem as que não dizemos,

quando olhares se cruzam para anular as simétricas

necessidades de falar sobre aquilo que não podemos.

 

onde se escondem queridas princesas do meu universo?

voltem para esta insensata selva onde estou submerso.

Faltam-me as vossas palavras e falta-me o ar que respiro,

não me deixem por isso sozinho neste demente retiro.

 

Sei que são fracos os versos que vos escrevo,

mas é forte o desejo que os imagina suficientes

para voltar a dançar ao som do frenético frevo,

que oiço quando leio as vossas palavras quentes.

 

13.

 

Terás tu um dia o tempo que preciso

para fazer do meu desejo o teu?

O tempo para fazeres do teu sorriso o meu?

Sem segundos, sem horas, o tempo indiviso,

o momento que de finito faremos eterno,

de nosso universal e de único reflexo infinito,

o instante feito sempre e o verão inverno.

Terás tu um dia este tempo, que limito

ao outro infinito, ao pouco que te escrevo,

para inventarmos o nosso próprio desmedido?

Eu, tu e o antes inalterável, a sós,

a recuperar o que andou perdido,

a inventarmos de novo a palavra nós.

2002 – parte III

Sonetos (Imper)feitos a Duas Vozes

 

 

I.

 

Enclausurado na escura câmara da saudade,

um coração desesperado grita por liberdade:

– Libertem-me grades cruéis! Não quero mais chorar

por este sentimento a que os tolos chamam amar!

 

–  Para que gritas, coração saudoso,

se à tua voz trémula já ninguém liga?

Porque choras, coração medroso,

se por amor tens quem te siga?

 

– Grito porque por amor abandonei quem me ama

e choro por amar outro coração também choroso,

que não chora pela saudade da minha cama.

 

– Oh coração cativo desse ilusório encantamento,

tu amas as grades e não a liberdade que cantas

e é por isso que choras nesse amargo sentimento!

 

 

 

 

II.

 

 

– Oh mente pensante, tens a lógica e a razão do teu lado,

mas só eu sei o que é andar e voar sobre o solo sagrado

onde florescem a saudade, a tristeza, a alegria e o amor.

Não queiras tu ensinar-me onde nasce a minha dor!

 

– Não posso senão sorrir ao escutar palavras-sentidas.

Coração onde não mando, ouve-me tu por uma vez:

Palavras de amor eterno, são apenas palavras perdidas,

como pensas poder amar uns olhos que não vês?

 

– Chega-me a sublime recordação daquele olhar,

daquele brilho intenso que nos unia num abraço,

que por tão belo, parava o tempo e anulava o espaço.

 

Mente distante, chega-me a nobreza da saudade

para saber que são dor as lágrimas que condenas.

– É água desesperada que corre, não é amor de verdade.

 


III.

 

 

– Pobre coração doente, o amor vem e vai como um rio,

não ergas um dique de saudades no leito dessas águas,

permite que esse amor perdido seja apenas gelo frio

e em breve poderás libertar-te de tão miseráveis mágoas.

 

Sentir deste corpo, que comando e oriento pela razão,

faço os olhos tristes chorar e os lábios alegres sorrir,

dou-te a voz intensa para que todos te possam ouvir

e deixo que comandes a vida quando vejo que é paixão.

 

Mas as pérolas nuas que te beijavam o peito

afastaste-as tu com esse vulgo amor perfeito,

que queres agora fazer com esse outro coração desfeito?

 

Nessa ânsia de descobrires a tua eternidade

acabaste por te afogar na tua própria bondade,

diz-me coração demente, qual é agora a tua vontade?

 

 

IV.

 

                 


1. Recordação e Sonho

 

Mais do que uma flor,

és a que num divino momento

transformou um árido terreno

num jardim recheado de amor.

Distante, continuas a ser a Flor

que mais o ilumina.

 

A paz no branco das tuas pétalas,

o brilho nos reflexos

das pequenas gotas de água

que repousam nas tuas folhas

e a fragrância

do perfume que distribuis,

continuam a preencher

de prazeres sublimes,

de sonhos e de nobres sentimentos

cada recanto deste jardim.

 

Sempre que o contemplo

é a tua cor, a tua luz

e o teu perfume que sinto.

 

Hoje,

destroiem-me as saudades

de tocar essa Flor,

de segredar-lhe

palavras de amor,

de sorrir ao seu sorriso

e de chorar com as suas lágrimas,

de alimentá-la e de saciar a sua sede.

Destroiem-me as saudades

de ser Parte da Flor.

 

Que louco fui quando pensei

que seria possível viver com a recordação

do Amor sublime dentro de mim,

desistindo dele na forma do teu corpo,

do teu sorriso e da tua presença.

 

Quero voltar a saciar a minha sede de amor

nos teus lábios e nas tuas lágrimas.

As minhas mãos tremem de fraqueza,

ansiosas por voltar a sentir

as delicadas pétalas de lírios que,

substituindo a pele salgada,

cobrem todo o teu corpo.

 

Quero voltar a alimentar o meu desejo

na chama de ternura que descobri

nos teus olhos e no teu beijo.

O meu corpo arrepia-se de sonhos,

ansioso por voltar a consumir-se

no fogo, que atravessando os teus olhos,

penetrava os meus.

 

Quero-te de novo meu Amor,

quero-te minha Flor.

 

 


2.

 

 

Sou só aquele que querem

por tudo o que não quero ser querido,

nada sou que queira alguém ser,

embora muitos queiram que eu seja,

aquilo porque querem ser esquecidos.

 

Agoniado, vomito um grito desesperado;

Porque me tentam agarrar, segurar,

porque me tentam encontrar, se agora,

se agora que corro para o que quero ser

não mais suportarei aquilo que têm sido!

 

Que rufem os tambores de guerra

pois cairão por terra os vossos castelos ruídos.

Desenterrou-se, libertou-se do terreno de vossas serras

a viga rija que suportava o vosso querer escondido.

Corrompida, corroída, por insistência destruída

e embora sozinha, corre agora para uma nova vida.

 


3.

 

Oh vasta floresta perdida que me alimentaste a Alma

na tua pele procurei vida nos teus braços encontrei calma.

 


Floresce de novo o meu desejo com os teus seios em flor,

despe-me, semeia-te em mim, mostra-te sem pudor.

 

 

Incendeia-me de novo o corpo por te desejar assim.

 

 

Oh vasta floresta distante, secular no tempo e no espaço gigante

na tua Eternidade reside o amor e na tua distância a minha dor.

 

 

 


4.

 

Fosse eu o pássaro que transporta a alegria que inunda a Primavera de flores

Fosse eu o majestoso leão que transporta a vida que inunda o Verão de calor

Fosse eu o dourado das folhas dos plátanos que enchem o Outono de saudade

Fosse eu o branco da neve que no Inverno aquece os corações dos homens

 

Apenas de sublimes prazeres seria preenchido o teu espaço.

 


5.

 

Nunca por ti feliz escrevi

Mas hoje, mais do que feliz,

Sinto vida em mim por ti

E por ti hoje ninguem me diz

Que não posso escrever assim.

E para ti, como nunca quis,

Quero hoje escrever de mim.

Sinto-me vivo, sinto-me forte!

Tão forte que escrevo depressa

Para não deixar fugir a sorte

que é escrever-te sem pressa,

a pensar rápido para acabar

um qualquer verso risonho,

para no fim voltar a chorar

pelo fim do nosso sonho.

 


2002 – parte II

Súplica

 

Mar,

que sustentas nos teus ombros fraternos

os frios glaciares de Inverno,

que nutres de cor os jardins floridos

da Primavera, tua filha generosa,

que no Outono, de corpo quente e despido,

de alma aberta e fervorosa,

recebes as primeiras chuvas,

os primeiros cristais dourados,

partes ínfimas de ti

evaporadas no azul do Verão

pelo calor do Sol escaldante,

teu pai e guardião constante.

 

Mar,

fonte de aventuras e sonhos

que nos impões a tua vontade e sorte,

infinita imensidão de vida e morte

que alimentas profetas e poetas,

 

Mar,

afunda-me no teu saber escondido,

pois mergulho em ti e vislumbro somente

na tua espuma branca o sorriso querido

que me faz chorar nesta súplica demente.

 

Mar,

recebe o sal destas lágrimas que me agonizam

mas faz do meu corpo o teu destino preferido

e ensina-me os ventos quentes que banalizam

a difícil arte de sorrir por um amor perdido.


Primeiro Soneto a Catarina

       (e não quer dizer que hajam outros)

 

Ai que arrepio de prazer

que doi sem doer

quandas falas sem saber

ao meu mais íntimo querer.

 

Na mais clara imagem do meu ser,

talvez porque te leio sem te ver,

talvez porque te quero sem te ter,

arde o profundo desejo de te conhecer.

 

Doce Catarina, meu suave renascer,

com este soneto que te tento escrever,

espero teu, o já meu profundo arder.

 

Doce Catarina, meu suave amanhecer,

não quero adormecer, sem te dizer e prometer:

aconteça o que acontecer, jamais esquecer!

 

 

 


Recordar-te

 

Quando a presença já não existir, o Amor perdurará durante muito tempo.

E quando  também ele decidir que está na hora de partir, ficará a recordação.

Parte de mim estará perdida quando a presença partir,

outra parte partirá acompanhando o amor.

Jamais estarei completo e só a recordação aliviará a falta.

E a recordação será eterna.

Para além da vida, para além da existência.

 

 

 

 

 


Doce e bela onda no mar

 

Doce e bela onda no mar,

mesmo que por vezes te sintas perdida,

no teu ventre trazes vida –

 

resultado do verbo amar

–  doce maré de sentimentos,

 

trazes no peito um coração chamado amor

e por ele, depois do oceano imenso,

das tempestades, do frio e do calor,

espera-te agora a praia, onda querida,

para proteger e ser o novo lar

do anjo que nascerá nesse dia

em que o canto de mil sereias

não terá tanta harmonia

como o choro que tanto anseias.

 

Embora esteja ainda protegido

pelos reflexos da lua e do sol

que teimas em transportar,

por conhecer quem o vai amar,

já  conheço também o destino

dessa nova maresia,

desse novo coração que em ti respira.

 

Onda azul de água pura,

 

vejo a Primavera inclinada em agradecimento

por trazeres do mais profundo de ti

essa nova flor marítima para o seu jardim-sentimento.

 

Onda pura de som cristal,

 

vejo o Verão sorridente, em alegre coreografia,

a mergulhar na nova onda que agora nasce

e a orientar o seu caminho no amor e na alegria.

 

Onda sal de sabor doce,

 

vejo o Outono, o Inverno, as serras, os campos e o teu abrigo o mar

iluminados pelo brilho do novo sorriso que transportas

e que já hoje envergonha as estrelas por ser tão grande o seu brilhar.


2002 – parte I

Inspiração

 

 

      Negros olhos cintilantes

  que percorrem os meus,

       que exploram

   como flechas penetrantes

     caminhos que já são teus!

 

          Mãos que me guiam

  por selvas de sentidos,

     que me tocam, arrepiam,

 que revelam prazeres escondidos!

    

     …és tu que me inspiras

  e, embora sem saberes, que me orientas.

 Enquanto sorris, enquanto respiras

      e sempre que a tua beleza ostentas

   estás a escrever mais um verso,

     estás a fazer-me sonhar e escrever,

 estás a deixar-me imerso

    em paixão, loucura e prazer…

 


Anita Princesa Mulher

 

Cruel é o sonho de quem sonha

na sensual nudez do teu peito,

se quando te sorrir a vergonha

tiver que acordar desse sonho perfeito.

 

Princesa Mulher, deixa-me sonhar!

Quero dormir e acordar em teu leito,

quero tocar-te e sentir-me voar,

quero-te feliz ou triste ou zangada,

quero rir, chorar, beijar-te e cantar,

quero olhar-te pela serena madrugada,

quero sentir o toque da tua mão

e abraçar teu corpo vestido de paixão.

 

Anita Princesa, Princesa Mulher,

deixa-me sonhar enquanto eu puder!

Não me chega a lua, nem o sol ardente,

nem todas as estrelas brilhantes,

preciso de ouvir a tua voz nitente

e de sentir os teus lábios vibrantes.

 

Anita Mulher, Bailarina do Amor,

dá-me o que tiveres mesmo que seja dor.

Abraça-me e beija-me e sonha comigo,

quero ser o teu amante e o teu abrigo.

Quero tudo que queiras também partilhar

só não quero que me deixes acordar.


Íntimo Furor

 

Íntimo furor

de prazer,

de sabor.

Incendeia-me sem ver,

usando o calor

do teu corpo em fogo e flor.

Incendeia-me de alegria

com a cor,

com o som da magia,

penetrante

como um tango,

como o ruído em teus lábios

que arrepia loucos e sábios.

 

Incendeia-me em aromas

com o perfume dos teus seios,

com as fantasias entreabertas

que me despertam

doces maresias,

desejo.

Sinto desejo

como quem sente

o beijo suave e quente

de tua boca encantada,

jardim vermelho,

devasso.

 

Incendeia-me em sentir

com a tua pele dourada,

vestida de pétalas

orvalhadas por diamantes

sonhados.

Incendeia-me em loucura

com a tua pele molhada,

despida num abraço

de chamas ardentes,

suada.

 

Incendeia-me com a música

dos teus gemidos sedentos,

com os movimentos

do teu corpo arqueado,

derrotado

por ondas de prazer

incessante.

Incendeia-me de Amor.

Incendeia-me Amor!

 

 

Silêncio

Fechem os olhos

Ouçam o que vos diz  o silêncio…

Ouvem-no segredar-vos?

 

“Pssst…. Hoje é o dia de renascer…

Lavem-me com os cristais salgados,

que aproveitam as vossas lágrimas,

para com a recordação, descerem ao Mar.

Quero com eles, chegar ao Mar e renascer.

O Sol erguer-me-á novamente,

subirei nas asas da Alegria

e das nuvens, meu destino,

na seda que vos veste,

voltarei a traçar o vosso.

 

Não vos fala da mesma forma

O vosso silêncio?

Chorem um pouco mais,

só com lágrimas o ouvirão,

por entre o tilintar

da chuva de sentimentos,

dizer-vos que basta.

 

Sombras e fantasmas povoavam

a casa do meu silêncio.

Impediam-no de me segredar

e trocavam o sentido das

palavras que por vezes lhe ouvia.

 

Por sinuosas e tortuosas estradas

chorei e caminhei noites sem fim.

Caí por poços de recordações

chorando e ansiando um fundo.

Chorava por alternativas,

mas com lágrimas de desespero,

em veias poluídas de loucura,

arde apenas  sangue envenenado.

Sangue que não liberta.

Sangue que oculta o silêncio

Sangue que sufoca a Alma.

 

Uma noite, depois de um sonho em que as sombras

me escondiam as alternativas, uma  Margarida Branca

acordou ao meu lado e falou-me em nome do silêncio:

 

“Lava o teu coração,

liberta-o da impureza das certezas

chorando com as dúvidas.”


Libertei-me!

E com as lágrimas,

que me queimavam os olhos,

surgiram primeiro suaves sussurros

e por fim palavras.

 

Palavras que serão vossas.

 

“Pssst…. Hoje é o dia de renascer…

Lavem-me com os cristais salgados,

que aproveitam as vossas lágrimas,

para com a recordação, descerem ao Mar.

Quero com eles, chegar ao Mar e renascer.

O Sol erguer-me-á novamente,

subirei nas asas da Alegria

e das nuvens, meu destino,

na seda que vos veste,

voltarei a traçar o vosso.”

 

Escutem o que vos diz o silêncio

É a vossa Alma que vos fala.

 

 

 

 


Portugal

 

Mar território

de universal coração;

coração promontório

de poesia, mar e paixão.

 

 

 


Amar-te

 

Amar-te é simples sorrir

Cor, sabor e sentidos…

Escondidos.

Voar e nadar

Em pétalas,

em seda.

Amar-te é simples sonhar.

 


Noite Comum

 

A noite veste-se de lua,

vagueio escondido,

procuro flores.

No limiar da cidade

pedras empilhadas,

zincos e luzes,

reflexos.

Lixo e terra batida.

Numa imagem sumida

vislumbro homens.

Carregam cruzes.

Homens e mulheres,

na penumbra,

procuram vida.

Vagueio sozinho

na noite agora nua.

Perdido.

Rodeado de vidro,

vidro agora vazio,

choro pela dor

de toda a cidade,

espero alguma luz.

Comigo, a noite

agora crua e nua,

espera também.

Sons. Medos. Sirenes.

Desilusões. Gritos.

Homens, mulheres

e cruzes. Cruzes de zinco.

Lama.

Noite comum.

Tão perto de mim,

tão perto do banal.

Depois do silêncio,

a luz finalmente –

o Sol.

Não vi flores.

Faltam 14 horas

para recomeçar.


Sem Abrigo

 

Caminha

sozinho na noite

fria

o sem amor.

Uma mão

suja de dor

a outra,

de maior sorte,

carregando

a própria morte.

Chega-lhe o sono

e sem receio,

protegido

pelo abandono,

deita o corpo

dorido

no duro passeio.

Tapado por

negras luas

dorme

nas ruas

o sem sonhos,

dorme e sobrevive

apenas

nos entressonhos

da sua declive

inexistência.

Loucura?

Demência?

Não Creio.

É tortura!

É vida perdida

por entre o centeio

da própria vida.


Fingimento

 

Mesmo à distância,

ilumina-me o brilho negro

dos olhos incandescentes

duma princesa dourada.

Choro por eles

e contemplo nas minhas lágrimas

as marcas de beleza na sua face.

Por amor

e por desejo

contemplo,

contemplo mas choro por dentro.

 

Uma linha do meu trabalho,

mil páginas de lágrimas.

Finjo duas páginas de trabalho

enquanto contemplo na minha dor

aquele sorriso de neve

que me completa.

Na saudade

e na recordação

contemplo,

contemplo mas choro por dentro.

 

Continuo,

continuo mas choro por dentro.

Em contínuo acto de infinita mentira

finjo prosseguir

enquanto contemplo apenas.

Contemplo,

contemplo mas choro por dentro.